terça-feira, 14 de julho de 2009

O tráfico de lixo


A descoberta de mais de mil toneladas de lixo europeu exportadas para os portos de Santos e Rio Grande revela a inclusão do Brasil na geografia dessa nova espécie de tráfico. Em Rio Grande (RS), 40 contêineres de lixo doméstico, o equivalente a 740 t de lixo, chegaram ao porto da cidade entre fevereiro e maio, vindos da Inglaterra. Foram identificados ainda oito contêneires na cidade de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, e outros 16 no porto de Santos.

Os fatos, denunciados há poucos dias pela imprensa, indicam que dezenas de contêineres com lixo urbano foram descarregados naquelas cidades como se fossem cargas de produtos importados por empresas brasileiras. A carga deveria conter polímeros de etileno (produto utilizado como isolante térmico na fabricação de plástico) para reciclagem. O lixo foi embarcado no porto de Felixtowe, Inglaterra, fazendo escala em Antuérpia, na Bélgica.

O lixo desovado no Brasil, num gesto que provavelmente esconde um crime a ser elucidado e que, além disso, retrata claramente o desafio mundial de dar um destino aos seus dejetos urbanos e industriais. Mais do que a multa que o Ibama aplicou às empresas envolvidas, o que o país precisa ter é, além de uma elucidação desses fatos até agora cercados de mistério, a segurança de que tal fato não se repita.

O destino do lixo mundial tornou-se um problema crescente para os países desenvolvidos e para a maioria das cidades médias e grandes do planeta. Não se trata apenas de encontrar um local para depositar esses resíduos indesejáveis. Trata-se principalmente de impedir que os dejetos urbanos, industriais, tecnológicos, atômicos, hospitalares e de todas as ordens produzam contaminação em prejuízo da vida na terra.

O episódio da chegada desses contêineres nauseabundos a nosso país, além de desencadear o mais eloquente repúdio e a demandar a apuração das responsabilidades, precisa levar a reflexões sobre o próprio modelo de consumo que, aqui também, é gerador de montanhas de resíduos descartáveis. Dar um destino ao lixo não pode ser considerada como uma tarefa exclusivamente governamental. Aos governos cabe, sim, a adoção de políticas e de ações necessárias para atenuar os efeitos antiecológicos oriundos da excessiva produção de resíduos, a começar pela implantação de modelos de reciclagem realmente efetivas.

Mas cabe aos cidadãos e a suas organizações a responsabilidade de fazer a sua parte, com a consciência de que se trata de uma questão que afeta a própria sobrevivência do homem sobre o Planeta, com qualidade e sustentabilidade. Esta é uma tarefa que cabe a todos em nome da vida e do futuro.